No Brasil, a Igreja dedica o mês de agosto à reflexão sobre as vocações. A cada domingo, celebra-se uma vocação específica: no primeiro, recordam-se os Ministérios Ordenados; no segundo, a vocação matrimonial; no terceiro, a vida religiosa e consagrada; no quarto, as vocações leigas; e no quinto domingo a vocação dos catequistas. É um convite especial para reconhecer e celebrar o chamado de Deus em nossas vidas, valorizando a riqueza dos diferentes caminhos de santidade.


Refletir sobre vocação é mais do que falar de uma dimensão eclesial: refere-se ao modo de ser da Igreja que, como o próprio nome sugere, é a “Assembleia dos Chamados” (Ecclesia). Assim, a Igreja é o povo convocado por Deus para viver em comunhão e enviado em missão para anunciar o Evangelho (cf. Mc 16,15). A vocação não é dom de alguns apenas, mas é o amor de Deus que interpela a todos nas formas mais belas e especiais. Todos somos chamados e vocacionados, porque somos amados por Deus e recebemos d’Ele a graça de participar de sua vida e missão.


Todos fomos chamados à existência, que é dom de Deus. Aliás, existir significa ser amado por Deus. Mas não somos chamados a qualquer modo de vida, e sim a viver uma vida de santidade, pois “Esta é a vontade de Deus” (cf. 1Ts 4,3). Para tanto, fomos incorporados no Mistério de Cristo através do sagrado batismo, enxertados em seu Corpo Místico, que é a Igreja. Na Igreja, enriquecida por diversos dons e carismas (cf. 1Cor 12,4-7), cada homem e mulher é chamado a uma missão específica, que se torna a forma concreta de viver a santidade no próprio estado de vida e no serviço aos irmãos e irmãs (cf. Lumen Gentium, 40).


É importante ter a consciência de que a vocação não é posse individual nem profissão: é dom gratuito de Deus, dado não por méritos ou capacidades humanas, mas pelo Seu desígnio amoroso. Ela é sempre para o outro, comporta uma alteridade radical e se realiza como doação de si mesmo. As vocações nascem do encontro com Cristo (cf. Jo 15,16).

Dessa forma, podemos contemplar a vocação dos Apóstolos: cada um, com seus dons e limitações, em sua realidade, é chamado por Cristo a segui-Lo e a participar de sua missão (cf. Mt 10,1-4; Mc 3,13-19; Lc 6,12-16). A Virgem Maria também não hesitou em responder “sim” ao projeto de Deus, tornando-se modelo perfeito de vocação e entrega: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (cf. Lc 1,38). E continua a ressoar, ainda hoje, para cada um de nós, o convite de Jesus Cristo: “Vem e segue-me!” (cf. Mt 4,19; Jo 1,43). Esse chamado de Jesus deve ecoar fortemente em nossas comunidades!


O Texto Base do 5º Congresso Vocacional do Brasil, que tem como tema “Comunidades Vocacionais: Encontro, Testemunho e Missão” e será celebrado de 04 a 06 de setembro em Aparecida – SP, recorda uma realidade essencial: nossas comunidades precisam ser verdadeiramente vocacionais. Isso significa
que a vocação é sempre vivida e sustentada na comunidade, pois é na vida em comum que se discerne, se fortalece e se realiza o chamado de Deus.


As comunidades devem ser lugares onde se favoreça um encontro autêntico com Jesus Cristo. Como recorda o Papa Bento XVI em sua Encíclica Deus Caritas est: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo” (n. 1).


O testemunho é outro elemento constitutivo de uma comunidade vocacional, manifestado em atitudes concretas como acolhida, hospitalidade, unidade e comunhão. Como sublinha o Documento de Aparecida, um dos grandes desafios da animação vocacional não é apenas chamar individualmente, mas motivar comunitariamente a atitude de chamar (DAp, n. 254).


E a missão, que é a essência da Igreja (cf. Ad Gentes, n. 2), deve ser constitutiva nas comunidades vocacionais. “A missão deve permear o modo de viver da comunidade, tornando-se parte essencial de sua vocação” (Texto Base do 5º Congresso Vocacional do Brasil, n. 180). É de suma importância reconhecer que vocação é missão: ambas as realidades estão intimamente ligadas. Todas as vocações são um envio, isto é, fazem parte do imperativo missionário dado por Cristo: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

Com um coração alegre por saber que somos chamados por Deus, rezemos por todas as vocações e, de modo especial, pelo 5º Congresso Vocacional do Brasil, para que seja um momento fecundo de reflexão e celebração de todo o caminho vocacional. Que nossas Comunidades Eclesiais de Base, paróquias, dioceses, regionais, seminários, institutos religiosos, grupos pastorais, movimentos e demais organismos eclesiais sejam verdadeiramente vocacionais, testemunhando que toda vocação é dom e missão.


Que Maria, Mãe de todas as vocações, nos ajude a responder com docilidade e generosidade “sim” ao projeto de Deus, tornando nossas vidas testemunho vivo de amor e missão.

Ryan do Nascimento Ventura – Seminarista do 1º Ano da Configuração (Teologia).

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