Que amemos ao Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e com todo o nosso espírito” (cf. Mt 22, 37)

Certo dia, ao abrir um livro de espiritualidade e ler sua primeira frase, fui tocado profundamente. Ali dizia que “Uma verdade que se repete constante nos evangelhos é a de que o braço de Deus nunca encurta”. Não sabia no momento, mas esta simples frase me acompanharia até hoje, e creio que continuará me acompanhando até o meu último suspiro.


Na simplicidade de Belém o menino Deus manifestou sua glória a toda criatura, o estábulo foi o seu primeiro trono. O Cristo já sabia que o madeiro do estábulo faria parte de sua vida como uma prefiguração para um outro madeiro: o da cruz. Ali, como um vaso todo quebrado Ele derramaria todo o seu espírito sobre a humanidade. Ao me recordar disso, a passagem que me vem à mente é aquela mesma que São Paulo deve ter afirmado com vigor a muitos e de muitas maneiras: a de que que guardamos um grande tesouro num vaso feito de barro.


Nesta pastoral de férias que todos os seminaristas da nossa diocese realizam, juntamente com o seminarista Otávio, tive a honra de acompanhar uma ministra de Eucaristia em uma visita a um casal, que após 50 anos de matrimônio se encontravam enfermos e acamados. O esposo em uma maca improvisada ao lado da esposa em outra maca improvisada. Ambas com a cabeceira em sentido contrário, talvez para que um pudesse olhar para o outro nesta fase da vida. A Eucaristia seria em breve recebida por ele, visto que ela já se encontrava em uma espécie de coma. O que me chamou a atenção não foi o fato do casal estar junto na saúde e na doença, mas o local em que a ministra colocou a teca com Jesus Eucarístico. Era uma mesa simples, de madeira, um pouco rachada em algumas partes, provavelmente como a cruz e o estábulo. Nela havia um “cotoco” de vela que foi acesa para velar Nosso Senhor alguns instantes antes de Ele repousar no corpo e na alma daquele enfermo que o iria receber. Ali naquela mesa simples o Menino Deus manifestava novamente todo o seu poder e a sua glória. Naquele instante senti uma paz dentro de mim, algo bom, uma alegria que não sei explicar. Hoje, ao escrever este texto entendo que era como se Deus me dissesse: há mais de dois milênios escolhi o estábulo e a cruz, hoje escolho esta simples mesa rachada e estes simples corpos quebrados pela enfermidade para fazer neles o meu trono, a minha morada”.


Que bom saber que andamos no mundo debaixo de um olhar que nos ama, que sabe que se tivermos a coragem de mergulhar nossos pecados na sua infinita chama de amor receberemos uma vida nova. Hoje compreendi que Ele não espera que sejamos perfeitos para nos amar, sabe que continuaremos sendo vasos de barro, e também continuará nos lembrando que dentro de nós guardou um grande tesouro.


Ao final da celebração da recepção da Eucaristia pelo enfermo, após a teca ser recolhida, a filha do casal apagou aquele cotoco de vela e me disse: “vou apagar para usarmos na próxima vez que trouxerem Jesus novamente”. Na sua simplicidade ela tinha a certeza que Ele voltaria, que não os abandonaria no sofrimento da enfermidade. Tinha também o amor necessário para acender a vela e adora-lo tão logo Ele voltasse.

Mateus Torezani Campo Dall Orto – Seminarista do 1º Ano do Discipulado (Filosofia )

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