“Eis aqui o Coração que tanto amou os homens, e nada poupou até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor; e em reconhecimento, não recebe da maior parte senão ingratidões e irreverências neste Sacramento de amor. Mas, o que ainda mais sinto, é serem corações a mim consagrados que assim procedem“.

Numa tentativa autêntica e genuína, mas incompleta, de contemplar o Sagrado Coração de Jesus é necessário voltar nossos olhares ao momento derradeiro da nossa história: o único e verdadeiro Deus se faz carne e habita entre nós. O mistério da Encarnação mostra evidentemente um Deus “chagado” de amor pela humanidade, que não somente retira nosso “coração de pedra” e nos dá um “coração de carne “(cf. Ez 36, 26), mas se torna possuidor de um.


Papa Francisco, na Carta Encíclica Dilexit Nos, exorta-nos a recuperarmos a importância do coração como sendo centro de desejo e lugar onde são construídas e lapidadas as mais importantes escolhas do indivíduo (cf. Dilexit Nos, n. 2 e 3). É preciso falar a partir do coração, não pautar-se somente sob a razão, pois é dele que emana a “poesia” e a possibilidade do “encontro” autêntico para com os irmãos (cf. Dilexit Nos, n. 11).


A imagem do coração está intrinsecamente ligada ao amor, tanto na cultura popular, quanto na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Pondera-se, no entanto, que “amor e coração não estão necessariamente unidos, pois em um coração humano podem reinar o ódio, a indiferença e o egoísmo”, o que não nos impede de deixarmo-nos desinstalar por Deus e permitir a realização de seu projeto para conosco, esse que se realiza quando nos permitirmos amar e sermos amados. “Assim, o símbolo do coração simboliza, ao mesmo tempo, o amor” (Dilexit Nos, n. 59).


Trata-se de uma devoção demasiadamente profunda, imensurável, mas que sem muitos esforços pode ser compreendida. Consiste em AMAR o Coração de Jesus correspondendo ao próprio Amor encarnado, concretizando-se na antecipação do céu, e REPARAR e consolar o divino Coração pelos ultrajes sofridos e pelo desamor dos filhos tanto amados por Ele.


No final do século XVII, em Paray-le-Monial, Santa Margarida Maria Alacoque relatou aparições de Jesus, ocasiões que este falava de seu divino Coração que estava abrasado de amor pelos homens e de seu amor que queimava como uma fornalha ardente. As aparições ocorreram entre o fim de dezembro de 1673 e junho de 1675 (cf. Dilexit Nos, n. 119).


Reveladas à Santa Margarida, as 12 promessas do Sagrado Coração de Jesus, feitas em favor dos seus devotos, que são as seguintes (cf. Manual do Coração de Jesus):

  1. Darei aos meus devotos as graças necessárias para cumprirem os deveres de seu estado.
  2. Farei reinar a paz em suas famílias.
  3. Eu os consolarei em todas as suas aflições.
  4. Serei o seu refúgio seguro durante a vida e, sobretudo, na hora da morte.
  5. Derramarei abundantes bênçãos sobre os seus empreendimentos.
  6. Os pecadores acharão, em meu Coração, a fonte e o oceano infinito de misericórdia.
  7. As almas tíbias se tornarão fervorosas.
  8. As almas fervorosas vão se elevar rapidamente a uma grande perfeição.
  9. Abençoarei a casa em que se achar exposta e for venerada a imagem do meu Coração.
  10. Darei aos sacerdotes o dom de tocar os corações mais endurecidos.
  11. As pessoas que propagarem esta devoção terão seus nomes escritos para sempre no meu coração e jamais serão apagados.
  12. O amor todo-poderoso do meu Coração concederá a graça da perseverança final a todos os que comungarem na 1ª sexta-feira do mês, por nove meses seguidos.

Muitos foram os promotores dessa excelsa devoção, no entanto, merecem destaque Santa Margarida Maria Alacoque e, seu diretor espiritual, Santo Cláudio de la Colombière que propagaram o culto ao Sagrado Coração ao ponto de atingir grande desenvolvimento e estima pelos fiéis. Outros também tiveram papel importante na promoção de tão insigne devoção, sendo eles: São João Eudes, São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, o Beato Henrique Suso, São Pedro Canísio e São Francisco de Sales (cf. Haurietis Aquas, n. 51).


A data litúrgica de tão amável solenidade é sempre a segunda sexta-feira da semana seguinte à Solenidade de Pentecostes, sendo celebrada universalmente em toda a Igreja. Em nossa diocese, o Sagrado Coração de Jesus é patrono da Igreja Catedral e da paróquia que a abriga, a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em Colatina, bem como do próprio munícipio citado, onde é feriado municipal.


Neste jubiloso dia, lembremo-nos em nossas orações, portanto, da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, que celebra seu padroeiro, e da Rede Mundial de Oração do Papa, atualmente considerada Obra Pontifícia, cuja espiritualidade se fundamenta no Coração de Jesus.


Historicamente, essa obra surgiu entre seminaristas, tomados pelo ardor missionário, num seminário da Companhia de Jesus na França, ocasião em que oravam e realizavam sacrifícios em prol daqueles que davam sua vida pela concretizaram do Reino de Jesus, tendo recebido o nome de “Apostolado da Oração”, posteriormente sendo alterado para o nome supracitado (cf. Manual do Coração de Jesus).

Por meio de suas orações, os associados da Rede Mundial de Oração do Papa clamam a Deus e ao seu Sagrado Coração pelos pedidos propostos pelo Santo Padre mensalmente, além de serem agentes de comunhão e de paz nas realidades as quais estão inseridos, dado que são instados a se configurar cotidianamente a Jesus, que era manso e humilde de coração. São, portanto, mantenedores de uma devoção viva ao grande amor de Deus para conosco.


Recordemos, por fim, o lema que São John Henry Newman trazia em seu ser. Cor ad cor loquitur, que significa: “O coração fala ao coração”. O Senhor Jesus resgata-nos por meio do diálogo amoroso de seu Sagrado Coração com o nosso frágil coração, pois um amor tão grande nos impele (cf. 2 Cor 5, 14), mesmo nas nossas limitações, a querer correspondê-lo.


Portanto, caríssimos irmãos e irmãs, não sejamos indiferentes ao amor que brota do coração chagado de Jesus. Lancemo-nos nesse tesouro inesgotável, nesse oceano divino, nesse abismo infinito, nesse porto seguro que é o Coração de Jesus, pois Ele incessantemente nos diz: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30). Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso!

Henrique Guaitolini – Seminarista do 1º Ano do Discipulado (Filosofia)

REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
FRANCISCO, Papa. Dilexit Nos: sobre o amor humano e divino do Coração de
Jesus Cristo. São Paulo: Edições CNBB, 2024.
MANUAL DO CORAÇÃO DE JESUS. São Paulo: Edições Loyola, 2023.
PIO XII, Papa. Carta Encíclica Haurietis Aquas: sobre o culto do Sagrado Coração
de Jesus.
15 de maio de 1956.

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