Durante o carnaval, tive a oportunidade de viajar com Dom Vanthuy, bispo de São Gabriel da Cachoeira, até a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, no território Yanomami, onde estão as aldeias de Maturacá e Ariabú. Uma irmã Catequista Franciscana e uma missionária francesa nos acompanharam. A viagem durou cerca de 7h, sendo 2h de carro e 5h de barco. O percurso pode parecer longo, mas há 70 anos, essa jornada levava pelo menos 5 dias.

A região, que está na divisa com a Venezuela, se destaca por sua exuberante beleza natural, praticamente intocada pelo ser humano. As imponentes serras, envoltas por uma imensa cortina verde, dominam o horizonte. Bem próximo dali está o Pico da Neblina, ponto mais alto do Brasil. Em Maturacá, torna-se fácil compreender e experimentar a admiração do próprio Deus diante de sua criação.

Os Yanomami, um dos maiores povos indígenas da Amazônia, são os guardiões desse paraíso. A estrutura de suas aldeias segue uma disposição circular, conhecida como shabono, uma grande maloca que serve como moradia coletiva e espaço de convivência para toda a comunidade. Como a maioria dos povos amazônicos, os Yanomami mantêm um modo de vida tradicional, sustentando-se através da caça, da pesca, da agricultura e da coleta.

O contato pacífico com os Yanomami dessa região é relativamente recente. Em 1953, o Pe. Antonio José Goés, SDB, foi o primeiro näope (homem branco) a entrar na grande aldeia de Maturacá, então habitada por mais de 400 indígenas. Com dedicação, paciência e generoso respeito aos costumes indígenas, Pe. Goés deu início ao trabalho de evangelização e educação entre os Yanomami. Hoje, as comunidades de Maturacá e Ariabú reúnem cerca de 3.500 pessoas.

Para nossa alegria, as duas aldeias estavam comemorando a tradicional Festa da Banana, celebração profundamente ligada à cultura e ao modo de vida do povo Yanomami. Durante a festividade, os caçadores, que retornam das expedições de caça, são acolhidos com honra. Faz parte do cardápio antas, macacos, mutuns e porcos do mato. Essa festa retrata a fartura da floresta e envolve danças, cantos e troca de alimentos.

Durante a Festa da Banana, um dos momentos mais significativos é o Reahu, um ritual de homenagem póstuma a uma grande personalidade da aldeia, geralmente um pajé ou tuxaua. No último dia da celebração, os homens preparam um mingau de banana, enquanto a família enlutada apresenta as cinzas do falecido. Em meio ao intenso pranto das mulheres, as cinzas são misturadas ao mingau, que é então consumido pelos familiares até o fim, simbolizando a continuidade do vínculo com o ente querido. O momento é tão sagrado e respeitado que não se permite fotografá-lo.

Na ocasião, os Yanomami de Maturacá celebravam o tuxaua Daniel, enquanto em Ariabú homenageavam o grande cacique Joaquim, falecido em 2015. Após a morte, o ritual se repete várias vezes até que as cinzas se consumam por completo. Joaquim foi a liderança que acolheu o Pe. Goés em 1953.

Durante a visita, fiquei impressionado com a quantidade de crianças. Eram muitas! Pequeninas, autônomas e livre, brincavam despreocupadamente no chão terroso do shabono. Elas nos olhavam com curiosidade, especialmente a mim e ao bispo, por causa da barba e dos óculos. As crianças não demonstravam medo; pelo contrário, corriam em nossa direção, animadas, querendo brincar.

O bispo seguiu sua agenda pastoral, encontrando-se com professores, catequistas e lideranças Yanomami. Sua mensagem foi sempre de encorajamento diante dos desafios enfrentados pela aldeia e pela paróquia. Tivemos também a graça de celebrar, com fé e piedade, a Quarta-Feira de Cinzas, contando com a presença expressiva dos fiéis.

A experiência entre os Yanomami foi intensa. Foram apenas cinco dias de visita, mas de grande proveito. Enquanto o país inteiro vibrava com uma de suas festas mais populares, o carnaval, e os foliões movimentavam as grandes cidades carnavalescas enchendo as ruas de cor, música e alegria, eu vivia uma celebração bem diferente. Não que eu seja um folião – na verdade, gosto mesmo é do feriado, do clima de praia e do tempo de descanso. Mas, desta vez, eu entrei na festa.

Enquanto alguns pulavam nos bloquinhos e dançavam nas marchinhas de carnaval, eu pulava e dançava com os caçadores Yanomami. Enquanto alguns aproveitavam o sol e o calor do feriado, eu me banhava num dos afluentes do Rio Negro, no meio da floresta amazônica. Enquanto alguns vestiam suas fantasias, eu me pintava com urucum, mel e breu, adornado com penas de arara e de gavião real. Enquanto alguns cantavam as músicas do momento, seguindo os trios elétricos, eu escutava e tentava imitar o bravo grito dos tuxauas.

Ao mesmo tempo, o país inteiro torcia pela vitória de Fernanda Torres no Oscar. Ela não ganhou, mas disse que a vida não se resume em ganhar ou perder. Concordo com ela. Em certa ocasião a atriz disse algo que resume bem a minha experiência em Maturacá e resume também a própria experiência dos Yanomami: “A vida presta!”. Independente dos altos e baixos, dos desafios e das dificuldades, a vida vale a pena ser celebrada.

É bem verdade que essa experiência se tornou mais completa na convivência fraterna com os padres e irmãos salesianos, guardiões da missão e da evangelização nessas terras. As histórias partilhadas ao longo dos trajetos ou durante as refeições, sejam as alegrias ou os desafios, ampliaram significativamente minha visão de mundo, de Igreja e de pastoral.

Que sorte a minha!

Carlos Daniel de Souza Martins – Seminarista em Síntese Vocacional na Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM)

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